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© 2017 by Lidia Barreiros at Lidia Barreiros Photo-Graphic

O outro Rio

November 17, 2017

 

 

Ontem, fui à estreia do maravilhoso documentário “O outro Rio”, dirigido por Émilie Beaulieu-Guérette. Que noite fantástica! Tive o grande prazer em participar deste projeto, compondo a trilha sonora, um samba intitulado “Demolição”, que gostaria de compartilhar com vocês.

Para baixá-lo, basta visitar o meu site www.pbottas.com.

 

 

Precisei de um dia pra digerir emoções. O assunto abordado no documentário foi pesado. Em 80 minutos, conheci a difícil condição dos vivem na ocupação carioca IBGE. Sem faltar com simpatia ao sofrimento daquelas pessoas, nem exagerar a dor da gente sofrida, Émilie apresentou um documentário sóbrio, que contrasta a presunçosa igualdade projetada pelos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro com a dura realidade dos diferentes. Um excelente documentário, contudo, sofrido, muito sofrido para os que ainda sentem! Imerso nas qualidades técnicas e estéticas do filme, vi o dia-a-dia dos inexistentes, dos incontáveis, dos inomináveis. O documentário não aponta dedo aos culpados e nem busca entrever possíveis soluções. Ele apenas faz testemunhar o cotidiano daqueles que procurei evitar em meu caminho. Pela tela do cinema, transformou-me em espectador de um sonho dantesco, onde tudo que lhes é de proveito é o avesso dos meus desejos. Chamavam de lar o que chamo de desterro, tem por casa o que me é escombro, comem dos refugos. Num interminável pesadelo, seguem sendo os mesmos homens e mulheres negros como a noite, as mesmas crianças de boca preta e as mesmíssimas moças em ânsia e mágoa vãs. Miseráveis, são os reveses daquilo que desejamos ser! Não bastasse o conforto da poltrona e o aconchego da sala de cinema que passou a me incomodar, como numa afronta eu os via gargalhar da própria pobreza. Debochando da má sorte e do peso do fardo, juntavam o pouco que lhes sobravam para celebrar um aniversário, cantando os habituais desejos de felicidade e muitos anos de vida. Muitos anos vida! De tudo o que há de bom, possuem quase nada, sobrando-lhes apenas a maior chance de serem vítimas de homicídios ou engrossar a população carcerária, encurtando assim os muitos anos de vida desejados. Terminado o filme, deixei a sala angustiado, com o nó na garganta e o peito apertado a perguntar: Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, se eu deliro... ou se é verdade tanto horror perante os céus?! Atordoado, fui ao encontro dos amigos e conhecidos, triste e seguro de que os heróis do novo mundo ainda não levantaram.

 

Ontem, lembrei-me dos escândalos de corrupção envolvendo os Jogos Olímpicos e cantei novamente o meu samba “Demolição” :

 

Em dois dias está tudo acabado

Hoje mesmo eu saio daqui

Liga pro Mendonça e manda esse recado

Que hoje eu durmo em Saquarema

Amanhã não tenho aonde ir

 

Manda um beijo pra Dona Iracema

Diz pra ela não se preocupar

Diga que eu dou um jeito nesses problemas

Que amanhã é um novo dia e que eu arranjo onde morar

 

Quando for pra derrubar meu barracão

Quando receber a ordem do juiz

Pode me chamar, não tem problema não

Mesmo que me faca pena, foi aqui que eu fui feliz

 

Quero chorar assistindo a cena

Ver desmoronar minha casinha

Que apesar de simples e pequena

Para mim era um castelo, era tudo quanto eu tinha

 


 

 

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